A Fauna de Campos dos Goytacazes e a UENF, uma história de desrespeito.


Por Henrique Nogueira

Em Campos dos Goytacazes, maior cidade do Estado do Rio de Janeiro, a prática da caça de animais silvestres é uma realidade presente em todos os nichos sociais. 

Das comunidades carentes às elites ou do gari ao policial ambiental, seja a captura de aves canoras ou o abate de animais silvestres para alimentação e "diversão", a cultura campista parece mudar muito pouco ao longo dos anos, e apesar dos trabalhos de educação e conscientização ambiental desenvolvidos na cidade, os relatos de animais capturados e abatidos são frequentes

Basta, por exemplo, visitar os bairros mais afastados do centro, logo nas primeiras horas da manhã, para se ter noção da quantidade de aves ilegais exibidas sem o menor pudor nas calçadas das casas.

Por muitas vezes, durante o caminho que faço diariamente de casa até a universidade, abordei senhores com gaiolas e alçapões nas mãos, e quando os informava do crime que estavam cometendo, a resposta geralmente era algo como "crime? não sabia não! Eu sempre fiz isso meu filho!", e continuavam como se nada tivesse acontecido. Quando eu tinha sorte, conseguia persuadir algum desses senhores a me entregar as armadilhas e a soltar um ou outra ave, mas sempre tive certeza que na manhã seguinte eles estariam praticando as mesmas ações em outros lugares.

E se engana quem pensa que presenciei esse tipo de situação apenas nas ruas de Campos. Durante todos os meses em que registrava a fauna da UENF (Universidade Estadual do Norte Fluminense), trabalho que fez parte da minha monografia, intitulada "A fauna de áreas urbanas de Campos dos Goytacazes", observei ações de caça dentro do campus da universidade. 

Captura de aves, abate de preás e coelhos, abate de marrecos... Uma série de crimes praticados dentro de um centro acadêmico que teria que ter como dever dar um exemplo de preservação de Fauna e Flora! 

Muito distante disso, os crimes eram praticados pelos próprios funcionários da universidade, e eram tratados como coisas normais. 

Como se não bastasse, nenhuma das obras ocorridas dentro da universidade teve ou tem algum trabalho de resgate de fauna, ou sequer existe alguma preocupação com a mesma. Posso citar como exemplo o caso da "Lagoa" que existia no campus, uma área que servia de refúgios para mais 200 espécies de tetrápodes e que hoje não passa de um buraco vazio, resultado de uma obra que tinha o objetivo de "tornar a lagoa mais bonita"... Pois é, acho que algo de errado aconteceu no meio do caminho.

Atualmente, apesar das áreas verdes do campus da UENF serem bem pequenas, ainda é possível encontrar uma fauna bastante significativa, inclusive de mamíferos, como cachorros-do-mato, tatus, tapitis, gambás e preás, animais que sofrem com a supressão de habitat e a caça, ação bastante facilitada com a produção de artefatos a partir do material proveniente das várias obras existentes no campus. 

Foi o caso do flagrante feito essa semana, onde recolhemos algumas "tutos", uma espécie de armadilha de laço para captura de preás e pequenos lagartos, uma alçapão de grande porte e um canário da terra, todos em poder dos operários de uma das obras. E esse, infelizmente, não é um caso isolado.

De qualquer forma, todas as medidas possíveis já estão sendo tomadas para que esse tipo de ação possa ser coibida, dentro e fora da universidade.

O triste é que temos então uma relação inversamente proporcional entre o número de novos prédios na universidade e o número de espécies habitando o campus. 

Realidade que tende a ter um final infeliz para a fauna (como sempre)! 


(Placa da obra onde as armadilhas e o canário foram recolhidos)

(Tutos: Armadilhas para caça de preás)

(Canário da Terra recolhido na obra)

(Alçapão recolhido na obra)

(Alguns vestígios de animais mortos durante as obras do campus)